Refletir sobre a identidade brasileira é um processo social contínuo. No Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), diversos campi colaboram para que essa reflexão esteja presente no cotidiano acadêmico e produza impacto real, para além de discursos e datas simbólicas, na vida de cada pessoa vinculada à instituição. Valores como liberdade, dignidade, direitos e humanidade atravessam esse debate e, nesse contexto, trazem à tona um nome fundamental: Zumbi dos Palmares.
Dessa forma, destacamos esta data simbólica — 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra — para evidenciar, por meio de servidores da instituição, algumas práticas que estimulam discussões sobre identidade, resistência e equidade racial. Assim, a educação se consolida como ferramenta essencial para honrar os ideais do último líder do Quilombo dos Palmares, contribuindo para a formação humana da comunidade acadêmica do IFMT.
NEABI/NUMDI, CPDRE e ações consolidadas nos campi
Dentro da instituição, o principal grupo diretamente envolvido com a promoção de iniciativas e debates sobre questões raciais é o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Indígenas e de Fronteira Maria Dimpina Lobo Duarte (NEABI/NUMDI). Este núcleo articula grande parte das ações antirracistas do IFMT. Um de seus integrantes, o Diretor de Educação Profissional Técnica de Nível Médio, Lucas Café, acompanha de perto os avanços e limitações observados no Instituto.
“O IFMT tem um potencial enorme para ser uma instituição antirracista, mas precisamos transformar esse potencial em ações práticas. Educação para as relações raciais é política pública — e política pública não se faz sem investimento.”, realça.
O diretor enfatiza ainda a necessidade de integração entre as unidades do IFMT na luta antirracista. Para ele, o trabalho coletivo dos campi fortalece a pauta racial dentro da instituição. “A maioria das ações antirracistas ainda depende de poucas pessoas e de poucos recursos. Por isso, é fundamental que os campi se aproximem, troquem experiências e fortaleçam seus núcleos para que a luta antirracista seja articulada e efetiva em toda a instituição.”, pontua.
No Campus Cuiabá – Bela Vista, a Comissão Permanente de Diversidades e Relações Étnico-raciais (CPDRE) desenvolve, desde 2021, um trabalho extremamente ativo na unidade. A relevância institucional da comissão se evidencia por meio de atividades como rodas de conversa, palestras, oficinas e exibições de filmes voltadas à conscientização, ao reconhecimento e à valorização das relações étnico-raciais. “O movimento negro é educador. Para uma escola que pretende formar cidadãos emancipados, conhecer a história do país contada por outras vozes — não brancas — é essencial.”, sublinha Gabriela Borges, assistente em administração do campus e presidente da CPDRE.
Gabriela destaca também a força da diversidade entre os membros da comissão, ampliando perspectivas no diálogo institucional. Essa estrutura tem resultado em ações significativas, como: oficina de Boneca Abayomi (2023), aquisição de livros para a biblioteca (2024), 13ª MCDH – Mostra de Cinema – Direitos Humanos (2024), Projeto Leituras Feministas (2025) e Batalhas de Rimas (2022–2025). Iniciativas que reforçam o papel educativo da CPDRE e influenciam diretamente o cotidiano dos estudantes.
“Haver um grupo diverso disposto a debater, construir atividades e propor ações é um papel de muita responsabilidade. Essas iniciativas enriquecem o repertório dos estudantes e os despertam para temas que antes talvez nem fizessem parte do universo deles.”, conclui.
Juína, Octayde e Tangará: arte, memória e continuidade das lutas
No Campus Juína, práticas que unem arte, cultura e reflexão crítica são constantes. A unidade do IFMT carrega uma trajetória sólida de defesa da educação antirracista e da igualdade de gênero. Com a Comissão de Gênero, Raça e Direitos Civis, o campus desenvolve o evento “Pensando em Raça e Gênero”, que promove o enfrentamento a diferentes formas de preconceito durante todo o ano letivo.
Por meio de pesquisas, estudos, consulta à biblioteca e debates, o campus busca transformar mentalidades e combater desigualdades. Como afirma Rafael Fortes, docente e membro da comissão: “A pesquisa e o conhecimento transformam o modo de pensar dos alunos, diminuindo preconceitos — especialmente sobre dança, religião e cultura afro-brasileira.”
Mesmo com ações anteriores, especialmente desde 2017, o Campus Juína vem ampliando sua discussão sobre racialização. Em 2022, o evento abordou diretamente o tema que compôs a redação do Enem: “Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. Em um período ainda marcado pelos impactos da pandemia, a resistência e a luta das populações minorizadas foram centrais.
Nesse mesmo ano, o campus recebeu líderes religiosos de matrizes africanas para uma vivência com estudantes e servidores, reduzindo preconceitos e desmistificando práticas religiosas. “A convivência com líderes religiosos foi extremamente positiva. Estudantes e servidores puderam tirar dúvidas e desmistificar crenças alimentadas pelo senso comum e pelo racismo religioso.”, relata.
O protagonismo negro também se destaca de maneira marcante no IFMT. No Campus Octayde, a força coletiva sustenta há quase duas décadas o tradicional Seminário África, realizado pela primeira vez em 2006 e, desde a quarta edição, com o nome atual. Hoje, chega à sua 15ª edição. Para o professor Cláudio Dias, o evento é símbolo de resistência: “O Seminário África é um processo de resistência. Mesmo sendo um dos eventos mais longevos do campus, ele constantemente enfrenta ameaças de calendário, visibilidade e financiamento.”
Segundo ele, superar os obstáculos exige trabalho contínuo ao longo do ano. O “África” atravessa etapas formativas da vida escolar, ampliando a consciência crítica e fortalecendo valores antirracistas, com reflexos que ultrapassam o evento e se desdobram no convívio social. Em 2025, por proposta do professor e historiador Kleber Corbalan, foi organizada uma exposição dedicada à memória do evento, com fotografias, quadros, banners e uma ampla cronologia — registrando o que servidores e estudantes construíram coletivamente.
Cláudio ressalta ainda o avanço das discussões sobre povos indígenas no campus. A valorização da história real dos diferentes povos brasileiros é essencial para uma compreensão plural da culturalidade presente no país. Esse movimento também envolve participação ativa dos estudantes. “Ao conhecerem a história da África e da população negra, os estudantes reduzem as possibilidades de práticas racistas. O protagonismo juvenil no África fortalece a luta antirracista.”, finaliza.
A compreensão dos estudantes sobre racismo e suas implicações também é algo discutido no Campus Tangará da Serra. A unidade, por meio do Núcleo de Estudos sobre Diversidades e Questões Étnico-Raciais, vem desenvolvendo ações ao longo dos últimos anos, destacando iniciativas de protagonismo estudantil, como a roda de conversa “Papel do Grêmio Estudantil na Construção de uma Educação Antirracista”, realizada no Fórum Local de Assistência Estudantil, Inclusão e Diversidades de 2023.
“Penso que as atividades educativas contribuem para ampliar a compreensão dos estudantes sobre essas temáticas, possibilitando que identifiquem situações de discriminação racial presentes no cotidiano escolar e social. Essas ações favorecem a compreensão do racismo não como um comportamento isolado, mas como um fenômeno estrutural que organiza relações e práticas institucionais.”, acentua Sarah Soares, assistente social do campus.
Sarah também destaca o trabalho do Professor Dr. Adilson Vagner de Oliveira, que desenvolve desde 2018 pesquisas voltadas às temáticas da diversidade e das relações étnico-raciais. Ela reforça que o esforço coletivo precisa ser contínuo para garantir políticas permanentes e coerentes com as necessidades do campus.
“As prioridades do Núcleo para os próximos anos são dar continuidade às ações formativas que já vêm sendo realizadas, promovendo debates e reflexões sobre as relações raciais e a importância de uma educação antirracista. No entanto, embora importantes, tais atividades não são suficientes para enfrentar um problema estrutural como o racismo. O enfrentamento ao racismo exige iniciativas maiores e integradas, que ultrapassem eventos pontuais e se consolidem como uma prática permanente no IFMT Tangará da Serra.”
Cáceres e Lucas do Rio Verde: fortalecimento da comunidade e novos projetos
Outras duas unidades que terão programação especial na semana da Consciência Negra são os campi Cáceres Prof. Olegário Baldo e Lucas do Rio Verde. Em Cáceres, o Núcleo de Relações de Gênero e Relações Étnico-raciais (NUGERE) realiza pela terceira vez um evento voltado à consciência cultural e à educação antidiscriminatória. Aberto à comunidade cacerense, o encontro enfatiza a importância de ampliar o diálogo para além do campus.
“Abrir o III Consciência Cultural para toda a sociedade é uma forma de aproximar o campus da cidade e defender, juntos, as pautas étnico-raciais. Quando a comunidade participa, o debate deixa de ser interno e passa a transformar o território.”, evidenciou Maribel Chargas, docente e presidente do NUGERE.
A programação desta edição inclui batalha literária, exibição de danças, capoeira e palestras sobre letramento racial e branquitude, além de espaço dedicado aos povos originários. A participação ativa de servidores reforça a construção coletiva necessária ao enfrentamento do racismo. “As duas primeiras edições mostraram resultados muito positivos na construção do respeito às diferenças. Isso nos permitiu planejar o III Encontro para criar espaços ainda mais inclusivos, que realmente acolham e defendam a dignidade e a cidadania das pessoas marginalizadas.”, disse Maribel.
Em Lucas do Rio Verde, o Coletivo Negros Passos em Palavras (YALODÊ/NEGPA) promove um ambiente seguro de aprendizado sobre literatura e autoria negra brasileira, especialmente a poesia, aproximando discussões sobre raça, gênero e sexualidades dos estudantes ao longo do ano. Coordenado pela professora Maria Carolina Rodrigues, o projeto passou a ser desenvolvido em 2025 com financiamento do Programa Redes Antirracistas, do Ministério da Igualdade Racial, em parceria com o Instituto Federal de Brasília. Sua primeira edição ocorreu no IFTM – Campus Uberaba, em 2023, quando ainda sob coordenação da docente na condição de professora substituta.
“Pessoalmente, o Negpa é um espaço de acolhimento para estudantes que desviam das concepções coloniais; acolhemos todas as dissidências e estudantes que queiram aumentar seu letramento racial e político-social. Beatriz Nascimento fala sobre a necessidade de criar Quilombos simbólicos e, para mim, o Negpa representa isso.”, disse Maria.
Com oficinas quinzenais de leitura e escrita criativa, o projeto foi realizado de fevereiro a maio no IFMT Campus Confresa, destacando-se pelo “Sarau de Carnaval”, no qual estudantes participaram de um concurso de bloquinhos representando diferentes estados brasileiros. No Campus Avançado Lucas do Rio Verde, as oficinas e o “Cine-Negpa”, com exibição do filme Medida Provisória, vêm sendo os principais destaques, especialmente agora, durante as ações do Mês da Consciência Negra. A coordenadora do projeto compreende a relevância desta iniciativa dentro de uma instituição de ensino.
“Ter este espaço hoje no IFMT representa uma grande conquista no sentido de contribuir com uma instituição mais plural e acolhedora. Ainda que os desafios sejam inúmeros, o objetivo do coletivo é trazer mais consciência no que diz respeito à raça, gênero e sexualidades — o que a própria LDB nos propõe — e este objetivo tem sido alcançado a partir de nossas ações.”
A soma dessas iniciativas revela que a luta antirracista no IFMT não se limita a datas comemorativas: ela se constrói, rotineiramente, no compromisso coletivo de servidores, estudantes e comunidades locais. Ao reconhecer memórias, fortalecer identidades e transformar práticas pedagógicas, a instituição reafirma seu papel público de promover uma educação que emancipa, que confronta desigualdades e que projeta um futuro mais justo. No IFMT, consciência negra não é apenas lembrança, mas sim, é prática, presença e responsabilidade contínua.
Texto: Andrey Bonfim – Estagiário de Jornalismo – RTR
Revisão: Rafaela Souza – Jornalista – RTR

